terça-feira, março 30, 2004

Um cara que eu descobri meio por acaso, lendo jornal, e gosto muito é o Cacaso, um mineiro chamado Antonio Carlos de Brito, grande poeta e também compositor. Seu estilo é limpo, fugaz e muito bem-humorado. O melhor dele (minha ignora opinião) é um pequenito cujo nome agora não lembro (mas está no livro "Beijo na Boca") e diz assim: "Outro amor? Não caio mais."

Outros versos de Cacaso:

Lá em casa é assim

meu amor diz que me ama
mas jamais me dá um beijo

pra continuar rejeitado assim
prefiro viajar para a Europa

Seresta ao luar

desde que declarei meu amor
nunca
mais me olhou de frente

Happy End

O meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

Meio que inspirado nele, me saiu este poema abaixo.

Perdidos (Leandro Godinho)

O amor é cego
e eu sou míope.

Pelo menos eu uso
óculos.

domingo, março 28, 2004

O Evangelho segundo Mel Gibson ou A arte de Deus é para qualquer um?

Em comentário ao blog da amiga Renata Férrer (ótima moça, com um futuro jornalístico brilhante à espera, apesar de suas tantas dúvidas), eu disse que o último sujeito que conseguiu aliar arte e religião com respeito e propriedade havia sido o Caravaggio. Um italiano destemperado e encrenqueiro, Caravaggio era franco e queria retratar a verdade da forma que poderia ser vista. Muitas vezes ele foi acusado de querer chocar simplesmente. Poderia ser cruel para muitos cristãos ver o dedo de São Tomé na ferida de Cristo. A incredulidade, para Caravaggio, representava algo natural, de pessoas humildes com as testas enrugadas pela surpresa. O pintor morreu em 1610.

Eu não vi "A Paixão de Cristo" e nem pretendo ver. Gosto dos filmes do Mel Gibson (ótimo rapaz, com uma bela carreira de diretor, vide "Homem Sem Face" e "Coração Valente"), mas não gosto de perder meu tempo com besteiras. E, não, não me incomodam as possíveis alusões anti-semitas do filme, afinal todos sabem que foram os judeus, mesmo, que mataram tanto o Homem, quanto o xeque Ahmed Yassim. O problema de "A Paixão de Cristo" é a violência. Minha visão parte de uma percepção coletiva, eu sei, mas não preciso comer jiló para saber que é amargo. Portanto, qualidades e defeitos deixados de lado, sei que o filme apela para cenas de violência e truques dramáticos.

Para explicar tanto sangue, Mel afirma que apenas transpôs para o negativo o que foi escrito com a ajuda do Espírito Santo. Leiam as escrituras, responde o diretor. Era mais ou menos a mesma coisa que alegava Caravaggio ("Disse depois a Tomé: "Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!"" - João, 20, 27).

A diferença está justamente no objetivo dos dois, Mel e Caravaggio. Em "A História da Arte", Gombrich argumenta que nada existe realmente ao que se possa dar o nome de arte. Restam apenas os artistas, diz. Considerando, então, a arte apenas como o fruto de um trabalho de artistas, sem uma definição magnânima, Mel peca a privar o espectador daquilo que mais deveria suscitar a repulsa à obra de Caravaggio. O pintor mostrava a humanidade de santos, raramente usando auréolas na cabeça e sem ar de mártires e super homens. Ele sabia, e como sabia, mostrar a arrogância do anjo, a dúvida penitente de Abraão e o desespero de Isaac.

Já Mel, no filme que eu não vi, relega um papel secundário aos personagens, aqueles que realmente fazem dessa a história mais vendida de todos os tempos. Se Jesus foi crucificado, Judas se enforcou e Pilatos lavou as mãos, isso pouco importa. O que eles representam, isso sim, faz a diferença - tanto para os melhores artistas, quanto para a maioria das religiões.

Desta forma, fazer um filme todo falado em aramaico é deixar bem claro que o cenário é mais importante que os personagens. E, no caso da história da Paixão de Cristo, a única coisa que realmente importa é O personagem. Fazer um filme sobre Ele deixando-O em segundo plano é o maior pecado de Mel Gibson e que ele arda no Inferno por isso.

quarta-feira, março 24, 2004

Há tempos que não comemoro mais meus aniversários, ou ao menos pouca vontade tenho de fazê-lo. Acho que cansei de fazer aniversários, o que até é compreensível depois de acordar na mesma data durante mais de vinte anos. Eventualmente acabo usando minha velhice crescente como desculpa para beber e encontrar rostos queridos, mas confesso que desta feita, nem isso fiz. Cansei, definitivamente, deve ser isso, a velhice e a tradicional chatura que a acompanha.

Na terça última, dia 23, às nove e meia da noite segundo o registro oficial, completei longos e confusos vinte e seis anos. Ah, e um pouco antes, neste mesmo dia 23 , às duas da tarde, colei grau como Bacharel em Comunicação Social (especializado em Publicidade e Propaganda, vejam só que coisa) formado na Escola de Comunicação da UFRJ. Alguns dias antes, eu havia sido aprovado num concurso público para trabalhar na área de produção da Radiobrás.

Era de se imaginar que eu estaria radiante, um futuro sem igual (há futuros repetidos?) apontava no horizonte, eu finalmente seria um homem adulto, pagaria contas, contrairia dívidas, passaria a perna no imposto de renda. Mas nem, que nada. Noves fora ter me graduado junto com pelo menos dois de meus grandes amigos da faculdade (o André colou grau comigo, imaginem), a colação me pareceu uma empulhação burocrática que poderia muito bem ser resolvida com um par de e-mails. Da Radiobrás ainda espero a convocação, um pouco menos tenso e mais ansioso, mas consciente que será apenas um emprego, um lugar que me tomará tempo em troca de mais-valia.

Não é que eu esteja triste com a vida ou algo parecido, estou apenas devagar. A minha desconfiança de que irei durar mais que os ideais 27/28 anos de vida é cada vez mais certeza, se eu der mole qualquer dia desses perco as estribeiras e me caso com um certo alguém. E o pior, estou gostando de envelhecer, ficar chato, devagar e com vontade de começar a fumar. Pressinto que, se ela insistir, minhas convicções de não deixar ao mundo o legado de minha miséria viram retórica e aceito até ter filhos, dois, um menino e uma menina. E, se eu eu virar pai e funcionário público, será impossível não começar a fumar, até porque eu terei que beber menos.

Diante de tanta incógnita, pais, parentes e mesmo alguns amigos e, creiam, até meninas lindas, fizeram questão de me dar os parabéns por tudo: o aniversário, a formatura e o concurso. Meus pais me deram dois cartões e um perfume (Polo, de Ralph Lauren, cheirosamente original de 1978 feito eu). Eu só poderia agradecer, mesmo que eu ache que o meu aniversário é um dia como os outros e que se eu entrei na faculdade, algum dia eu iria obviamente sair dela, do contrário nem precisaria perder meu tempo entrando.

E aqui estou, quase duas da manhã ouvindo uma fita cassete com o Tidal da Fiona Apple, uma mulher que eu gostaria muito para mim, para tratá-la feito uma puta no sexo e uma filha no amor, ocupando o espaço deste blog com palavras gastas e gestuário clichê. Envelhecendo. Quem sabe, amadurecendo. E, bobo que sou, pronto para comemorar quantos aniversários precisar em qualquer boteco que aceite a mim e meus amigos beberrões e festeiros. Porque mesmo um velho chato feito eu ainda é um ser vivo, diabos.

sábado, março 20, 2004

Maria havia finalmente encontrado o seu alguém, um rapaz pouco mais velho e mais alto que ela, chamado Antonio. Ele tinha a curiosidade de ser natural do Mato Grosso e descendente de irlandeses ao mesmo tempo, e era arquiteto feito Maria. Pela arquitetura puderam se conhecer, pois trabalhavam no mesmo escritório e participavam do mesmo happy hour, e num deles particularmente animado, Maria beijou Antonio que beijou Maria.

Maria, que só conhecia o Mato Grosso por conta da novela Pantanal e de inúmeras edições do Globo Repórter, reparou que ele havia a beijado de olhos fechados. Ela vai negar com todas as forças, mas enquanto autor eu posso afirmar que foi ali que ela se apaixonou por aquele parente distante dos celtas. Achou bonito o beijo dele, como ele parecia tão dela, tão frágil. No dia seguinte, contou para a sua irmã caçula ao telefone, mas a caçula disse que beijar de olhos fechados era bobagem, e que ninguém se apaixonava por aquilo. Maria se apaixonou, e sua irmã desligou que precisava correr pro curso de inglês.

Antonio percebeu logo que Maria estava fisgada, que ele não era bobo nem nada. Após o beijo ela já lhe sorria outra, e então beijaram mais. Foi neste segundo beijo que Antonio reparou que ela também fechava os olhos para ele, e o próprio beijo ganhou outra visão. Ele lembrou que sua última namorada nunca fechava os olhos com ele, nem no sexo, como se não acreditasse nele ou sempre precisasse vigiá-lo. Maria acreditava nele, se colocava em seus braços e se deixava beijar. Daí, vejam só, se apaixonaram num beijo, não é bonito?

Maria e Antonio apaixonados, resolveram juntar suas coisas num mesmo armário, ou em dois talvez, mas no mesmo quarto. Vocês precisavam ter visto as lágrimas de Maria quando Antonio sugeriu que eles deveriam dividir cama, teto e escova de dentes. Encontraram um apartamento agradável sem muita demora. Maria e Antonio precisaram então, cada qual em seu canto, arrumar suas coisas. Cartas e fotos e dedicatórias tornaram a passar por suas memórias. Eu, autêntico manteigão, sempre tive um fraco por lembranças, nem jornal velho consigo jogar fora, o que dirá as letras, rasuras, marcas de batom e até sorrisos de gente que um dia foi querida e depois virou distância. Maria levou mais tempo que Antonio arrumando o seu passado. Exumou algumas partes, outras encaixotou e depois precisou de um cigarro e meia hora sossegada. Antonio era mais prático, sempre escolhia a melhor lembrança de uma pessoa e jogava o restante fora depois de um tempo. Só precisou arranjar suas desventuras em um par de envelopes e depois pôde tratar do presente.

Era sábado quase noite e resolveram começar a mudança. Ele passaria de carro e ajudaria a arrumar as coisas todas. Maria havia encontrado Antonio que havia encontrado Maria no fechar dos olhos durante um beijo. Tratariam de preencher o presente com outras letras; o passado já era lembrança neles dois.

quarta-feira, março 10, 2004

Acho que foi há duas semanas que li na coluna dominical do Elio Gaspari na Folha que o nosso barbudo Luis Inácio havia, então, percorrido 30% de seu mandato. Isso aí, é quase metade da missa já, ou, preliminares suficientes para a gente partir para o rala-e-rola prometido.

Mas eis que o Lulão refuga, entre lágrimas, suor, partidas de futebol e bonés. Os juros continuam altos. Os meus amigos todos continuam procurando emprego. Espetáculo do crescimento já virou piada recorrente. O país, até onde vejo, continua na mesma e tendendo a piorar. Não consigo deixar de lembrar da Regina Duarte com os olhos esbugalhados, a face trêmula e seu medo confesso. Nossa brava gente judiou de Regina e elegeu Lula, sem medo, cheio de alegria.

A festa acabou, o carnaval já passou e agora o governo Lula está devendo para essa gente atitudes. Afinal, Lula obviamente não irá resolver séculos de dependência e meretrício barato em quatro ou oito anos governando, sabemos bem. Mas o ponto crucial é que ninguém irá alavancar qualquer mudança de cenário no Brasil caso o país não passe a olhar para si próprio doutra forma. E, até onde posso compreender, Lula e sua equipe continuam olhando o Brasil tal qual os demais governos que o antecederam: como um gigantesco prejuízo a ser administrado da forma mais lucrativa possível.

Falta a olhos vistos um objetivo nos atos do governo. Falta planejamento e sobra retórica. Isso é mau. Parece que que os petistas estão ali em Brasília se entreolhando com a pergunta nos olhos "que diabos vamos fazer com tudo isso aqui, agora?". Bem, nem todos, é verdade. A equipe econômica resolveu trilhar o caminho indicado pelo governo anterior, curiosamente o mesmo caminho que a candidatura petista apontou como errado. E os escalões menos vistosos do governo resolveram fazer bons negócios, ainda que escusos. E a Benedita, bem, pano rápido para ela.

Lula ainda tem um pusta trunfo na manga. Seu carisma é tanto que as pessoas ainda distinguem a sua imagem da imagem do governo que preside. Além de dar um beijo em Duda Mendonça, nosso presidente poderia usar tal artifício a favor do governo, dando o exemplo. Trabalhar, criar, procurar investir e inspirar a todos nós. Acho que foi isso que enxergamos nele, alguém que poderia dar um exemplo diferente, positivo. Enfim, votamos nele porque ele era um trabalhador, um trabalhador como nós. Ainda há esperança, mas bem menos, vale dizer, bem menos.

A Regina Duarte ainda está aí. Pelo andar da carruagem, não vai ser nem um pouco surpreendente se nas próximas eleições ela voltar às telinhas com um ar irônico e publicitariamente vitorioso dizendo que havia avisado. E o Aécio, os petistas devem saber, não tem a cara de vampiro do José.

quinta-feira, março 04, 2004

A lâmina corroeu a carne do pobre homem e ele gritou um nome de mulher. Valéria. Fez-se súbito o silêncio, entrecortado por gotas de sangue enferrujado que alcançavam o chão e pelos soluços que nasceram nas mãos laminadas da mulher. Teria sido menos doloroso se ela tivesse sido batizada Valéria? Por que aquele diabo não poderia amar uma Regina, mas sim uma Valéria?

Ele tremia e suava. Não piscava os olhos, não respirava. Só conseguia sangrar. O riso dela invadiu o cômodo e escapou pelas janelas, se misturando às pessoas e verduras na feira. Ele sentiu um engulho na barriga, julgou que iria desmaiar mas não queria dar esse gostinho para Regina, não era um frangote no matadouro. Fechou os olhos e se pôs a pensar em Valéria, poderia tentar soletrar o nome dela ao contrário, airelav, airelav nada significava. Regina nada entenderia e pensaria que ele estava de sacanagem com a cara dela e daria de ombros.

Regina acendeu um cigarro e passou a olhar seus olhos com um rosto ainda inédito. Um rosto de pedra, via-se que estava fazendo algo mais do que simplesmente encarar o homem. A fumaça deslizava queimando de tesão entre seus dentes. A navalha ainda pendia de sua mão direita, calada, em alerta, gotejando rubra. Ele tentava gritar por Valéria, mas o medo de Regina, e agora sentia muito medo dela, estrangulava sua laringe. Ouvia os gritos vindo da feira que começava a encorpar junto com o sol. Respirava couves e abobrinhas, corria entre as barracas, roubava um beijo da menina que vendia aquele caldo de cana sagaz. Tropeçava e Regina o fatiava feito um filé de namorado.

Sentiu o tapa gritar-lhe o nome na orelha. A mulher a sua frente estava ouriçada, não fosse ele estar com as mãos atadas dentro daquele cômodo obscuro e ela com a navalha sangrando em punho a fumar e o olhar perigosamente, pensaria que estava diante da melhor trepada de sua vida. Ela estava quente, ele gelava. O tapa lhe voltou a memória e percebeu que ela perguntava por que Valéria. Respondeu corajosamente que Valéria era tudo o que a vida poderia oferecer a ele, homem em todos os seus defeitos, uma mulher de verdade. Dito isso, suspirou um fardo e gritou, que Regina o queimava com a bagana em seu peito nu e suado de medo.

Lembrou de seu tio num aniversário de casamento em família, o homem o aconselhou num tom de voz que lembrava uísque nacional “nunca provoque uma mulher a não ser que você esteja armado”. Na hora ele chegou a rir mas viu o rosto do tio digno, apesar de alcoolizado. Podia presenciar o homem recostado na parede com seu uísque nacional cantando vitória para ele, eu não te avisei, rapaz? Regina o conduziria pelo salão de mãos dadas para bailar com ele, deslizaria gostosa, esquentaria o samba. Eu sou um homem velho, Regina. Ele estava cedendo, olhar no chão e as pernas dobradas na cadeira. Eu sou um homem velho e Valéria é o tenho na vida, Regina. Segurava as lágrimas para o regaço de Valéria. Regina não se comovia. Regina o amava e não se comovia diante da ferida aberta a seus olhos.

Regina acendeu outro cigarro e foi olhar a feira na janela. Afastou um pouco as cortinas, um dia quente. Ouvia o seu amante respirar o seu cigarro. Ele jamais iria largar Valéria, dizia, porque era um homem velho. Tinha quarenta anos e se dizia um homem velho. Havia passado horas dentro dela das formas mais sexuais que deviam existir, a revirava do avesso, não poupava nem o caroço e agora se confesava um homem velho destinado apenas ao amor de Valéria, sua esposa havia quinze anos. Ela seria apenas regina, um nome impróprio, um substantivo comum. Viu a uva na mão da vovó, ela estava bonita, suculenta, passaria na feira mais tarde. Iria vencer seu homem pelo cansaço, desabotoou o vestido e se alojou naquele colo, beijou a queimadura, fez juras de amor com os dentes cerrados naquela carne suada.

Valéria, era o que ele respirava, eu amo Valéria. Fez-se o silêncio, apenas a feira lé fora. Eu nunca vou amar você, Regina, porque eu sempre amei Valéria. Então é assim que termina tudo? Nunca houve nada entre nós. Ele se ajoelharia e pediria o perdão de Valéria pelos últimos dois meses de mentiras mal-contadas. Largaria a bebida. A navalha ainda estava lá em Regina. Ela fechou os olhos, lhe beijou a testa e o sangue dos amantes se misturou à feira que invadia aquele cômodo.

terça-feira, março 02, 2004

Dois buracos e um clown ou Onde foi parar meu sono?

O que mais me incomoda na história que se seguirá é minha outrora certeza, praticamente devoção, de que o Rio de Janeiro é um local seguro e que não se deve, por nada, privar-se de coisas em nome de segurança. Só que tudo mudou e não há meus tradicionais poréns desta vez.

Fui assaltado na noite de sábado por um homem mulato, extremamente nervoso, aparentando ter mais de 30 anos, com um revólver dos grandes numa das mãos. Não tenta nada e passa tudo. Eu distraído, um revólver para dentro do carro e nada mais a fazer a não ser obedecer.

Alguém atirou, alguém tentando me ajudar atirou, algum filho da puta metido a herói atirou. O bandido apontava a arma para dentro do carro e se assustou. Deu um tiro para o alto e correu. Gritei para minha namorada que se abaixasse, que se protegesse e contasse com a sorte, porque a sorte, inexistente na minha razão, nos salvou.

Duas balas acertaram meu carro, uma no pneu dianteiro esquerdo e a outra bem no logo da volkswagen. Foram duas balas, como se cada uma tivesse uma direção, eu e ela, como se cada uma servisse para nos matar, a mim e a ela.

Desde então, três noites passadas, tenho dormido mal. Imagino nós dois atingidos, imagino ela atingida, imagino eu atingido. Imagino minha penitência por estar distraído, por andar com o vidro aberto, por outrora considerar o Rio de Janeiro um local seguro.

Imagino, ainda, o bandido, aquele que começou tudo isto com as ordens para que eu nada tentasse e passasse tudo, imagino ele morto. Lembro de seu nervosismo, de seu rosto sofrido que eu vejo no espelho ao acordar, lembro. Eu me desespero nos pesadelos por sua morte e tento ajudar. Tento salvá-lo. Não consigo culpar o bandido e, talvez, isto esteja tirando meu sono.

Eu sempre falei com todos os clowns dos sinais de trânsito. Raramente contribuía, mas cumprimentava e acenava. Até já apertei a mão de alguns. São todos bandidos, André, sempre disseram muitos de meus amigos conservadores que não conseguiam se acostumar com minhas práticas cristãs. Quando o verdadeiro bandido se aproximou, quando eu o vi de relance, virei-me pensando que fosse um clown, um daqueles que eu admiro e cumprimento.

Eu estou sem dinheiro, companheiro, boa sorte para você. Daquela vez eu não mentiria. Será que foram tantas mentiras que me castigaram? Será que todos me amaldiçoaram porque sabiam que, na verdade, eu sempre tinha alguns centavos que não me fariam falta? O bandido, o vingador dos clowns, nem quis me ouvir e, depois, ainda duvidou. Você não está passando tudo.

E, além de passar a temer os clowns, ainda me pergunto quem atirou e o que teria acontecido se ele tivesse acertado os alvos. Agora vou tentar dormir.