sábado, maio 06, 2006

Eloísa

Senti firmeza em Eloísa assim que botei meus olhos nela. Assim, sem dramas e apresentações. Celso foi logo nos apresentando, meu grande amigo Celso, uma vasta cabeleira made in Japan. "Essa é Eloísa, minha vizinha." Estavam lá jogando conversa e cigarros fora, eu resolvi passar no apartamento dele para ouvir um CD que ele ficou me recomendando por mais ou menos um mês.

Ela de vestido branco e óculos, descalça, sorriso. Ele me apresentou, eu era "Leandro, amigo, veio aqui ouvir aquele CD que te falei, dos Strings". Aí ele se levantou e foi catar o disco no quarto e ficamos os dois na sala, ela acendendo outro cigarro, eu de pé, calças jeans, sapatos, camisa de trabalho, bolsa de trabalho, celular na mão. Perguntei a ela se tinha cerveja, ela pediu uma. Fui buscar na geladeira e assim começamos.

Quando voltei, os Strings já ganhavam a sala através das caixas de som, pareciam bons os Strings, comentei. Deixei meus pertences no chão perto do sofá e me sentei perto, junto da minha cerveja, logo após entregar outra para Eloísa e fazer as honras de abrir uma terceira latinha para Celso. Conhecia Celso de anos atrás, de uma fila para ingressos para um festival de cinema mexicano. Os filmes não eram grande coisa, mas em dois deles Salma Hayek fazia com os atores e as câmeras tudo o que gostaríamos de fazer com ela. Celso e eu fomos para a fila com camisas da mesma banda (Molotov) e ele puxou papo comigo por conta disso. Meses depois, fomos colegas de turma num curso de espanhol e aí ficamos amigos.

"Salma Hayek nos uniu, Eloísa", sentenciei, fazendo um brinde. Puxei um cigarro do bolso da camisa e ela se ofereceu com o isqueiro. Neste intante, fui flechado e traguei fundo o momento, o sorriso, os olhos castanhos turvos, os caracóis, as alcinhas alvas sustentando o vestido e contornando os ombros. "O Celso me fez escutar tanto essa banda que já canto no chuveiro", ela disse sorrindo. Aí ela perguntou o que eu fazia, onde morava. Respondi que morava no outro quarteirão, de onde saía toda manhã para retornar só de noite após dar expediente como assessor de comunicação no Instituto Nacional do Coração, "um centro de referência mundial em corações partidos e afins".

Eloísa era professora e queria estudar música. Mas seu sonho era ser bailarina. "Quando tinha sete anos quebei o pé andando de bicicleta e nunca mais consegui executar um demi-plié decente", aí ela levantou do sofá e nos mostrou seu demi-plié indecente. Julguei mais-que-perfeito, e pelo que pude averiguar no olhar de Celso, ele também. "Essas professoras de balé não sabem de nada", Celso aferiu e todos concordamos. Mais um brinde e Celso foi fazer as honras de trazer mais um trio de latinhas. "Bacana conhecer você, o Celso me fala de vocês às vezes", Eloísa confessou e desta vez eu acendi os cigarros.

Celso era um dos meus melhores amigos, ia falando, e começamos a desencavar algumas histórias vividas parceiramente, eu e ele. Eloísa apenas bebia, fumava e sorria. Talvez houvesse sido um dia duro que terminava surpreendentemente leve, com dois amigos compartilhando um bem-estar com ela, pelo prazer de sorrir ou simplesmente ser. Talvez ela estivesse interessada em algo que ia além das palavras e dos gestos e daquelas paredes. Talvez ela apenas precisasse daquele sorriso para seguir tentando não chorar, por mais bonita que ela fosse, aquela cidade não poupava nada e nos exigia demais a cada cruzamento. Os Strings estavam esquecidos no CD player, em repetição.

As latinhas secaram e nos vimos cansados, apesar de contentes por estrmos juntos. Eloísa levantou primeiro, despedindo-se de Celso com um beijo e plantou-se de frente pra mim, indicando que eu também deveria me despedir dela. Levantei e disse que também estava de partida e peguei meus pertences e fomos. Celso combinou de passar no meu apartamento na tarde seguinte para vermos um jogo. Fechou a porta e de repente estávamos eu e Eloísa e a escada para o andar de cima onde ela morava.

Os corpos ficaram ali parados, suspensos do tempo e da dor. Eloísa era linda demais daquele jeito para ser verdade. "Outro dia" ela disse, me deu beijo furta-cor na bochecha, "outro dia você passa aqui e me devolve o isqueiro que esqueci no seu bolso". Subiu as escadas e eu desci as minhas.

Na rua, apalpei o bolso da camisa e o isqueiro dela estava lá. Ao lado de um sorriso, um beijo e um vestido branco, leve feito o sono que sentia em minhas vértebras.