segunda-feira, junho 02, 2003

“Antipatiquices

1) Me parece haver algo de moralmente errado nessas pessoas que vão ao supermercado e fazem amizades no corredor de laticínios. São pessoas simpáticas que não colocam cercas no próprio espírito; e a qualquer momento você encontra dois jardineiros, uma manicure e dois borracheiros dormindo na cozinha de sua psique. Ser simpático é bom, mas respeitar o próprio mistério é melhor ainda. Cada pessoa devia ser reservada e misteriosa como uma mulher de véu. Era para isso que o véu existia; uma lembrança de que as pessoas devem ser sociedades secretas, não clubes de bingo. Coloque cercas. Coloque muros.

2) No paisagismo (li não sei onde) se busca um elemento de surpresa: que depois de um caminho despretensioso de cascalho, ao virar uma curva se veja, de repente, um lago. O charme perfeito devia ser assim: você conhece uma mulher, e ela é antipática; dias depois, ela é gentil, mas fria; e meses depois ela sorri quando você se aproxima, e só quando você se aproxima. O contraste entre a frieza com que ela trata os outros e a alegria que ela reserva para você é o charme mais intenso que existe. Antipatia é necessária; a antipatia é o vison do charme.

3) Um sotaque leve é charminho; pesado é boçalidade. Paulistas ouvem certos atores cariocas com nojo; cariocas ouvem certos apresentadores paulistas com nojo; e todos têm razão. Não é xenofobia - é o reconhecimento instintivo da boçalidade alheia. Ninguém que tenha lido mais de cem livros tem sotaque forte.

Nota do Editor
Alexandre Soares Silva assina hoje o soaressilva.wunderblogs.com, ondes estes textos foram originalmente publicados. “

Puts! Isso foi o máximo que conseguiu passar na minha cabeça vazia diante dos três parágrafos acima. Quanto rancor num coração. Uma pessoa dessas deve ser um excelente vizinho. Coloque muros, coloque cercas, se arme contra o sorriso e o bom-dia alheio. Deus me livre. Será que uma pessoas dessas é capaz de perceber que cercas e muros andam matando (não só) judeus e palestinos diariamente? A nossa burguesia trata cada vez mais de se cercar e se isolar do resto da cidade, pois a cidade é suja demais para as suas imundícies burguesas, e deixa as ruas para os pobres e desempregados. Dentro do seu mundinho particular, cada burguês constrói sua própria fortaleza hermeticamente fechada, a prova de sons e balas. E à prova de gente, o que é vital. Fiquem longe de mim. Fiquem longe da minha literatura, do meu computador, da minha música, das minhas taras. Fiquem longe, e não me convidem para ver o pôr-do-sol que esse tipo de coisa eu acho num filme do Fellini ou num parágrafo em alemão. “As pessoas devem ser sociedades secretas”. Ele deve se achar um dos eleitos. Ui, que meda!

Ainda por cima me sai com este lance de antipatia para cativar as pessoas. No mínimo, algo insólito. Sabe o que eu faço quando me deparo com uma guria lindíssima que faz questão de fingir que não existo, ou que mereço o mesmo tratamento do papel higiênico dela? Mando-a solenemente à merda. No máximo, talvez, ela me valha uma punhetinha antes de dormir, mas só se ela for algo como a Luana Piovani (que é super simpática, aliás, como já pude comprovar). Porque gente que incapaz de sorrir tem mais é que foder mesmo, eu hein. Não há uma segunda vez para ela, porque ela não merece. Não há perdão para essas pessoas que gostam de te fazer sentir ridículo porque têm vergonha (ou medo) de ser feliz. Claro, ela pode ser algo como a Luana Piovani, mas, francamente, a Luana sorriu e retribuiu o beijinho que joguei meio bôbado para ela (linda) durante um carnaval. Então é melhor que as demais, que não nasceram todas luanas, tenham um mínimo de simpatia para com o próximo também. Especialmente se o próximo for eu.

“Ninguém que tenha lido mais de cem livros tem sotaque forte.” O que dizer, diante de um argumento desses? Esse cara nunca foi ao Rio Grande do Sul, não? Nunca reparou como o cinema tende a valorizar os sotaques? Nunca parou para perceber que grandes obras literárias possuem sotaques carregados? Nunca leu Érico Veríssimo, Jorge Amado, Drummond? Nunca ouviu Gil, Bob Dylan, Stones? Nunca fechou os tais cem livros e saiu do próprio cercadinho? Ou só quis impressionar seus leitores como uma frase teatral e definitiva, mesmo que babaca? Tomara que não seja presunção, mas apenas ignorância.